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Crônicas aos Diferentes (Não Indiferentes): 01 - Crônica Criptagrafada

“... A Indiferença opera com força na história. Opera passivamente, mas opera, é a fatalidade; é aquilo com o que não se pode contar; é o que interrompe programas, subverte os melhores planos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca...” (Indiferentes; odeio os indiferentes; Gramsci, Boitempo, 2020; tradução: Daniela Mussi & Alvaro Bianchi)   Eu estava quieto em meu canto, curtindo a paz alienada, sabendo que está tudo ruim, que estamos diante de diversos fins do mundo, mas na certeza de que a sociedade se organizou para nos deixar descansar; quando um certo conhecido me contou que acha hipocrisia sair de casa para votar e depois simplesmente não cobrar, não invadir o congresso e senado apontando dedos e reivindicando que seus desejos egoístas ou sociais sejam realizados. Bem, o maior benefício da evolução sociopolítica está exatamente em terceirizar para pessoas “competentes” tais desgastes políticos, que façam por nós o que não temos tempo para f...
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Lugares do irreal

       Os lugares do entendimento são variados, e pergunto: é possível entender de fato acoplado ao achar, à opinião e ao gosto? O entendimento de algo é concreto ou subjetivo? Se estamos no campo subjetivo então talvez não exista entendimento, apenar sentir, mas quanto às coisas concretas é possível algum nível de entendimento, talvez sejam as únicas coisas que possam ser entendidas de fato. Isso não é uma ode ao campo das exatas ou nada que possamos ter como técnico e concreto, não estamos falando sobre a cisão da mente e do corpo, estamos indo além, tanto a mente quanto o corpo podem se entendidos, então há força para além de tudo isso, que é o real que nos abraça. O mundo não é moldado tanto pelo entendimento, grandes homens e mulheres podem entender coisas e aplicar à algum progresso social, algo restrito, que também não indica que entenderam a vida, mas algum funcionamento de alguma coisa que faz parte da vida, e ostentarão essa ideia de que estão certos po...

O Certo, o Errado e o Bondoso.

               Algo que a própria física contemporânea nos ensina, e que podemos aplicar a vida, são sobre as relações que criamos entre diferentes ideias. Tendemos a relacionar ideias positivas a outras positivas porque acreditamos que os iguais em essência se encontram em algum lugar, mas temos cenários diversos quando pensamos na realidade. Pessoas justificam bons comportamentos dizendo que é o certo ou que estão do lado da verdade, mas não há sempre relações entre isso. As combinações são variadas, devemos fugir de imagens simplistas tentando conciliar o que muitas vezes é irreconciliável. Quando algo dá errado o cérebro se angustia porque não consegue ou deseja conceber a realidade como múltipla. Imaginemos que um amigo está querendo se matar, eu o ajudo por bondade, mas logo relaciono isso a “É o certo a fazer!” ou “É a verdade, acredite em mim!”, e não, a maioria das coisas na vida são independentes e devem ser analisadas de forma ...

O Outro Simulado

     A sociedade contemporânea vive em camadas metafísicas, o virtual nos abraça de forma nunca vista. No início queríamos nos unir como um povo global, ou assim era a promessa, encontrar nossa tribo e facilitar a comunicação, então surgiu o virtual, onde todos nos encontramos, e encontramos grupos e subgrupos de pertencimento, a informação começou a ser compartilhada, de verdades há mentiras, mas de forma orgânica (até onde podemos pensar o virtual como orgânico). Tudo bem que no início já existia a possibilidade de sermos nós mesmos, perdermos as máscaras, era de certa forma uma afirmação da identidade, agimos de maneira mais sincera quando usamos máscaras para nos livrarmos das responsabilidades. De toda forma criou-se o virtual. O virtual ou a simulação sempre existiu entre nós, seja em uma festa de carnaval, onde por alguns dias podemos não ser nossos simulados eus reais, a questão é que a vida também pede boa dose de dissimulação, que já existia, ocultamos como ma...

Ce n'est pas un ami (Isto não é um amigo)

Talvez a pintura de Magritte, “Isto não é um cachimbo”, seja uma das mais importantes já feitas, ela nos traz tantas informações e reflexões que faz todo o mundo da arte se tornar fundamental para nosso entendimento quanto humanidade e sobre a realidade e essência das coisas; imagine a mesma pintura ressignificada, em tempos de desapego extremo, no lugar do cachimbo um retrato, de uma simples pessoa, mas a legenda não indica “Isto não é uma pessoa”, mas: “Isto não é um amigo”! Entremos nas camadas e camadas das relações. A imagem em si, de fato, se já não seria uma pessoa ou humano, apesar de podermos distinguir uma pessoa de um humano, bem, se já seria difícil de maneira básica, imagine a concepção de amigo, quando até mesmo se fosse um humano real não saberíamos de fato que se trata de um amigo, mesmo que fosse rotulado como amigo. O amigo em si, o que seria essa concepção para nós? Ele é tão coisa quanto a coisa chamada cachimbo? O cachimbo é um cachimbo simplesmente por ser aqu...