Algo que a própria física contemporânea nos ensina, e que podemos aplicar a vida, são sobre as relações que criamos entre diferentes ideias. Tendemos a relacionar ideias positivas a outras positivas porque acreditamos que os iguais em essência se encontram em algum lugar, mas temos cenários diversos quando pensamos na realidade.
Pessoas
justificam bons comportamentos dizendo que é o certo ou que estão do lado da
verdade, mas não há sempre relações entre isso. As combinações são variadas,
devemos fugir de imagens simplistas tentando conciliar o que muitas vezes é irreconciliável.
Quando algo dá errado o cérebro se angustia porque não consegue ou deseja
conceber a realidade como múltipla.
Imaginemos
que um amigo está querendo se matar, eu o ajudo por bondade, mas logo relaciono
isso a “É o certo a fazer!” ou “É a verdade, acredite em mim!”, e não, a
maioria das coisas na vida são independentes e devem ser analisadas de forma
independente.
Temos
os aspectos relacionáveis: Certo, Verdade e Bondade, e em outro extremo conectamos
Errado, Mentira e Maldade, como se andassem ligados de forma intrínseca.
Eu passo necessidade financeira, não tenho como trazer comida para casa, então eu roubo, alguns poderão dizer que roubar faz parte da maldade e por sua vez está ligada a uma mentira universal, onde somente os farsantes possuem relação, não é bem assim, roubar pode ser errado, é moralmente e socialmente errado, mas não significa que o ladrão seja um mentiroso, ou que seus motivos sejam falsos, ainda são genuínos, e porque não conceber uma pessoa que afana o leite e nem por isso é uma pessoa maldosa, pode até mesmo ajudar outros com seu ato.
Da
mesma maneira uma pessoa deseja se matar, posso usar todos os discursos possíveis
para impedi-lo, ajo por bondade, porém... consigo dizer que meus argumentos a
favor da vida são verdadeiros? Muitos são, mas nem todos, e na verdade estamos
em um campo de especulação, onde a defesa da vida esbarra também no
livre-arbítrio, e em outros aspectos mais profundos sobre a inevitabilidade da
morte e da fragilidade do ser, entropia do universo e tudo mais que nos transforma
em um grão de poeira e faz com que toda essa defesa seja brincadeira dialética,
não podemos relacionamos vida à verdade, agora, sobre o certo a fazer, é certo
que eu defenda e impeça alguém de se matar, mas o certo e o errado são
construções sociais, muda de sociedade para sociedade, tempo, lugar, pessoa, é
um campo ainda mais quebradiço do que a verdade ou a mentira.
Por
simples angústia, ou para validar seus pensamentos, porque precisamos agir nos
respaldando racionalmente, temos essa ridícula necessidade de nos sentir
humanos ou animais para além do animal, tropeçamos em justificativas e
relacionamos tópicos que nem sempre são relacionáveis, tendemos a justificar e
empurrar todas as nossas ações para algum polo positivo, mas orgulharia
perceber um único ser ciente da complexidade da vida que abraçasse o negativo
com dureza e responsabilidade, com o fardo dos heróis, dos sinceros. Apenas admitir
que aquilo que se defende não é verdade, mas é o certo ou é o bom, ou aquilo
que se defende é por mera bondade, longe de qualquer análise concreta, e
suportar que lhe achem vil.
A
questão perturbadora que deve ser analisada é mais psicológica, é sobre a
validação humana. Porque tendemos a relacionar aquilo que defendemos, seja
nossa atitude boa, a veracidade daquilo que proferimos ou se é certo ou errado a
algum aspecto moral que justifique tudo, eliminando o que há de podre, ruptura
ou perturbador na atitude? Jogamos o oposto para um campo de negatividade, quase
sempre essa negatividade é o contrário daquilo que dizemos ou de nosso
comportamento, ou seja, o outro. Parece que o parâmetro de validação é sempre o
umbigo.
Algo
que a própria física descobriu nos últimos anos, quebrando com a lógica
determinista da física clássica está na física quântica, a eterna dualidade que
vem desde a explicação do universo às nossas ações e posições. Hoje está claro
que o universo é dual, complexo, múltiplo, onde coabitam tanto o determinismo
quanto o probabilístico, e assim também é nossa mente e por sua vez a realidade
que nos rodeia que vai desde o material até o mais raso conceitual.
Quanto
ao verdadeiro ou falso, fato ou mentira, temos aqui um campo que se conecta somente
com a veracidade das coisas, existências concretas ou históricas (mesmo assim
as históricas são tendenciosas e interpretativas), a verdade não é um ponto
seguro para um mundo quebradiço e em constante mudança; ainda podemos afirmar
algumas coisas, poucas, mas podemos. Algo é verdade, mentira, aconteceu, não aconteceu,
e para por aqui... disso não tiramos conceitos morais senão interpretações
baseadas nos conceitos morais que são incrivelmente tendenciosas, mas de forma
direta: afirmamos ou não a existência de algo ou acontecimento, uma premissa,
um mais um é igual a dois. Agora, se o três é imoral, maldoso, errado, é outro
lugar de análise, começamos a conectar a Verdade aos conceitos que floreamos
para fazer sentido, já que somos seres simbólicos e precisamos adicionar
sentimentos a tudo que nos relacionamos.
Quanto
a Bondade ou Maldade, temos conceitos separados, individuais, longe da
realidade ou não de qualquer coisa, não estamos falando sequer do certo e do errado
que são estruturas um pouco mais rígidas dependendo da sociedade e do meio que você
frequenta e vive, a bondade e maldade é ainda mais subjetiva, com poucos parâmetros.
Podemos agir de forma boa ou má de acordo com nossa moral e tudo o que acreditamos,
e quase sempre utilizamos isso para validar uma verdade ou mentira inerente. Eu
ajudo um morador de rua, por bondade, mesmo que a lei local impeça a atitude,
mesmo que me chamem de trouxa e em algum nível seja relacionável ao errado, “não
alimente as pessoas”, “ela deveria conseguir; não se responsabilize por isso”, pode
bater até vergonha em ser bom, muitas vezes nos deparamos com coisas como “devemos
ser bons, mas não trouxas,” o que é só uma tentativa de se tornar forte ou
julgar o outro por uma bondade que você não consegue ter pelos motivos que for.
Sobre
o Certo ou o Errado, muitas vezes falamos das leis, hábitos sociais construídos.
Quase sempre relacionamos aquilo que é certo à bondade, mas procedimentos certos
não são inerentemente bons. Amparados por leis conseguimos justificar qualquer
atrocidade: apedrejar, queimar, condenar por questões de sexualidade, entre
tantas coisas que a história antiga e contemporânea nos mostra todos os dias.
Os
conceitos são componentes distintos, analisados conseguimos problematizar, não
sendo lugar de repouso dignificante para ninguém. As pessoas querem se sentir
validadas, seja em seu comportamento mais íntimo (bondade, maldade), ou social
(certo e errado, ideológico, religioso, filosófico etc.) ou de forma rígida e
científica (verdade ou mentira), vão empurrando seus polos opostos para lugares
de julgamento vil (até mesmo rotular esse comportamento como vil é uma maneira
que tenho de relacionar o oposto da concepção do mundo como pluralidade a algo
de mal, tomo o ponto de partida como bom). Difícil conceber que há ponto de coerência
na atitude daquilo que não se defende.
Tudo
é dialética, seja em defesa com argumentação ou sentimental. É necessário conceber
a dialética dos sentimentos como a maneira que temos de posicionar nosso íntimo
no mundo, e fazer de nosso sentimento um parâmetro a ser seguido, o que viola
drasticamente o direito do outro de sentir diferente, ou de viver e
experimentar diferentes sensações que o mundo lhe impõe. Os argumentos são os
mesmos “Pensou errado”, “Sentiu errado”, mas não há maneira única de
experimentar a existência, vamos ainda criando hierarquias de pensamentos e
sentimentos que deveriam ser adotados por todos. Não basta nos colocarmos
diante da vastidão de tudo que nos rodeia, de forma profunda e complexa,
queremos que o outro compartilhe da mesma relação com o todo, o que nos deixa
cada vez mais sozinhos diante da inevitável certeza que é: ninguém compartilha
com ninguém a existência mais íntima, estamos sós e vulneráveis.
Erroneamente,
as pessoas relacionam “Certo, Verdade e Bondade” porque identificam como semelhantes
àquilo que possui essência positiva. Mas isso é um engano: todas as combinações
são possíveis. Algo pode ser certo, mas não bom; ou verdadeiro, mas errado; ou
bom, mas mentira... da mesma forma não são dependentes os conceitos “Errado,
Mentira e Maldade”. O mundo é contraditório, múltiplo e complexo.
O
maior avanço da ciência nos últimos anos, o conceito de uma possibilidade probabilística
na física, antes tão rígida, é algo que abraça de forma intensa nosso ser e
nossos maiores anseios, somos probabilísticos tentando criar estruturas rígidas
que sirvam de porquês e justifiquem nossas ações e escolhas.
Como
deve o homem, liberto do ego e da vontade, agir diante das coisas que lhe são
apresentadas? De forma humilde ou arrogante? Temos outro nível para cima dos
outros três conceitos de dualidades apresentadas, valida-se tudo aquilo que diz
um homem humilde somente por ser humilde, por mais errado, maldoso ou mentiroso
que seja.
Nunca
foi e nunca será sobre bondade, nem verdade e nem sobre o certo. É sempre posição
defensiva ou acusatória de humanos que colocam humanos contra a parede e tentam
impor alguma coisa, destituído do teor factual, cultural e íntimo; é sobre se
afirmar, se colocar quanto um ser pensante que merece atenção e que grita em
cada comportamento: eu estou aqui, existo, penso, assim é minha vida e ela não
é errada, eu penso certo, sou bom, não há nada de negativo em mim.
Esse
esbravejar é a negação de si, porque sendo tudo que pode ser, tendo em si todas
as coisas boas e más, inerentes a nossa imperfeição, afirmar-se de tamanha
vontade e em todos os passos no dia a dia, é ser menos “si mesmo”, é ser um
outro que tenta negar quem se é. Admirável seria aquele que ao identificar o
negativo vivesse em paz com isso, e mesmo perturbado, mais genuíno e
verdadeiro.
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