Talvez
a pintura de Magritte, “Isto não é um cachimbo”, seja uma das mais importantes
já feitas, ela nos traz tantas informações e reflexões que faz todo o mundo da
arte se tornar fundamental para nosso entendimento quanto humanidade e sobre a
realidade e essência das coisas; imagine a mesma pintura ressignificada, em
tempos de desapego extremo, no lugar do cachimbo um retrato, de uma simples
pessoa, mas a legenda não indica “Isto não é uma pessoa”, mas: “Isto não é um
amigo”! Entremos nas camadas e camadas das relações.
A
imagem em si, de fato, se já não seria uma pessoa ou humano, apesar de podermos
distinguir uma pessoa de um humano, bem, se já seria difícil de maneira básica,
imagine a concepção de amigo, quando até mesmo se fosse um humano real não
saberíamos de fato que se trata de um amigo, mesmo que fosse rotulado como
amigo.
O amigo em si, o que seria essa concepção para nós? Ele é tão coisa quanto a coisa chamada cachimbo? O cachimbo é um cachimbo simplesmente por ser aquilo que é ou foi construído, pois cachimbos não existem originalmente, são produzidos, feitos, como um objeto utilizável. O amigo é uma coisa construída pelo tempo, mas não feito por alguém, o amigo se faz, em posição ativa, de forma dupla, por quem o considera e pelo próprio que ao ser considerado age como amigo, sendo então uma pessoa em construção, ele se coloca em posição de amigo agindo como amigo; mas o amigo também pode não existir, como a imagem, ser mera representação de um amigo. Eu o considero amigo, ele não se considera amigo, e podemos ir além, eu o considero amigo, ele se considera meu amigo, nós nos tratamos como amigos, mas tecnicamente ele não é um amigo.
O
que é um amigo? O amigo é a representação, como a pintura do cachimbo? Ou é um
título? É uma consideração? Existem rituais de amigos? Comportamentos de
amigos? Ou somente existir ao lado de alguém o transforma em amigo?
O
tempo está incluso na produção do amigo, pode agir em uma pintura deteriorando a
pintura, destruindo o objeto de representação. Mas pinturas transcendem a
própria matéria, uma vez feitas, atingem um grau de existência na sociedade,
pode ser replicada, e assim o significado, que é a única coisa que existe de
fato, que vai para além do tempo que o deteriora, continua, permanece, podendo
ser replicado, e aquele cachimbo inexistente se torna eterno (eterno se não
pensarmos em questões cosmológicas), mas bem, voltando para nossa frágil
temporariedade, o amigo retratado obviamente não é um amigo, o retrato da
pessoa escolhida está lá, que pode ser a pessoa rotulada de amigo pelo pintor,
diferente do objeto cachimbo que representaria todos os cachimbos, esse amigo é
um ser específico, não representa todos os amigos, a arte se torna
problemática, o amigo está em um posto tão particular, sendo unicamente identificável
por seu criador ou rotulador, que dificilmente seria o amigo de qualquer um que
olhasse a obra, mesmo que de fato fosse o amigo de quem retratou.
O
pintor ignora que a construção do amigo vai para além da representação, não
basta dar um nome (colocar uma legenda), não basta considerá-lo, não basta o
amigo se considerar amigo, eles adentram o terreno temporal, imaginando que o
tempo já tenha se consolidado, partiríamos para as atitudes, onde talvez, de
fato, exista um duplo engano, onde nada daquilo signifique amizade, apenas o
desejo de se ter um amigo e assim se considerarem amigos. Mas são?
Quem
dá o tom é a decisão?
É
tudo representação como no quadro. Se em uma família temos o fator criação ou geração
constituindo os papéis de cada, aqui não temos um parâmetro que se possa
caracterizar o amigo. Ele não nasce do ser, ele se faz, ele se pinta através do
tempo e das fracas tintas que se/o dissolverão, ou sendo mais conceitual, podem
ser replicados, mas nunca traduzindo todos os amigos daqueles que contemplam a
obra.
O
amigo pintado precisa transcender a materialidade para sobreviver, e só assim
significar de fato um amigo para aqueles que tecnicamente não experenciaram a
amizade do retratado.
Quando
olhamos a foto de Sam Gamgee ou lemos (Senhos dos Anéis), automaticamente
sabemos que ele transcendeu a concepção de ser, virou o significado, logo
pensamos “Isto é um amigo”, mas há outro engano, se pensarmos na palavra, em
seu nome, ele não existe, nunca existiu, é amigo sem tempo, sem matéria, amigo
de todos e de Frodo. Se já fica difícil uma legenda representar a imagem daquilo
que acompanha, imagine a palavra de um texto de fantasia que sequer possui um
objeto para indicar, ele não existe, apenas o seu significado, significado sem
corpo. Nós sabemos, isto é um amigo!
Agora
imagine que Sam Gamgee (em sua corporeidade mais conhecida) seja retratado na
imagem, e imaginamos que neste quadro seja o ator Sean Astin, temos aqui um
problemão. Como identificar, apenas através das vestes no quadro que ele é um
amigo? Primeiro fazemos o caminho natural, pensamos em Sean como Hobbit (que
não é) para pensar no Hobbit como Sam (que não existe) para relacioná-lo a
Frodo (pois não há amigo sem “amigo de quem”), para só então termos a ideia
completa: Amigo.
Talvez
o ator se perca em seu significado, talvez não para os seus conhecidos e
familiares, mas para todo o resto da humanidade e do inconsciente coletivo,
onde de fato, mesmo depois de morto, ele não foi um pai, filho, Hobbit, ator,
mas de fato: amigo. E tudo isso por causa de Tolkien.
Usando
do irreal para significar o amigo em si, poderíamos pensar na raposa em “O
Pequeno príncipe”, no Hobbit Sam, ou em outras figuras que seriam efetivas se
pintadas para indicar no quadro ‘um amigo”, não seriam amigos de ninguém, uma
vez que seus referenciais não existem. Voltamos ao problema, ele continua, o
pintor retrata um individuo em específico, que não transcendeu para além do que
é, não consegue de fato representar um amigo para todos aqueles que olham o
quadro, sua legenda diz “Isto não é um amigo!”, será que sequer o amigo real
seria de fato um amigo? O próprio humano que caminha, para além de sua
representação, ainda carrega a legenda invisível que não representa aquilo que
é, “Um amigo”, ele é considerado, possui a temporariedade, mas de fato seria um
amigo? Retiramos o retrato da parede, colocamos a pessoa que ele representa, e
damos uma placa para essa pessoa “Isto não é um amigo”, fica parado, e nos
passam diversas ideias pela cabeça “Amigo de quem?”, a não ser que seja de uma
pessoa conhecida que possui contexto, talvez John Lennon, e pensamos em todo
contexto do fim dos Beatles, podemos debater, Lennon é amigo ou não? Destruiu ou
não os Beatles? Fazer o mal também é inerente aos amigos, um amigo pode ser
amigo mesmo não agindo como tal, ou seria loucura pensar isso? Imagine que esse
amigo dissecado contenha um rol de atitudes não nobres, de traições e
desamparos, mesmo assim o referencial o considera amigo! Bem, ele ainda reside
na zona do amigo, é um amigo, continua amigo pelo título.
O
rótulo importa? A legenda é real? A legenda significa de fato aquilo que ele é,
mas ao mesmo tempo não é, são palavras, e agora entramos na análise mais básica
de Magritte, disso não precisamos falar.
O
cachimbo não é real, a pessoa não é real sendo real ou não.
Entro
em um site de inteligência artificial e envio minha fotografia, peço para
reproduzir um quadro de Magritte e adicionar a legenda “Isto não é um amigo”,
de fato não é, sequer sou eu, é minha representação, mas amigo de quem? Essa pergunta
“De quem?” é muito importante, talvez a mais fundamental para identificar a existência
de um amigo, ele só é possível, além da legenda construída, se possuir outro
que o complementa e o identifique como tal. O amigo não existe, só existe quem
o considera amigo, assim ele começa a existir.
Temos
um caso raro e bastante atípico, como o amor, o desafeto, o rival, mas pensemos
no amigo como signo para todos esses outros tipos de gente, é atípico e se
diferencia do cachimbo porque, embora o cachimbo se torne menos cachimbo quando
colocada a legenda, porque nunca palavra e imagem serão aquilo que representam,
o amigo possui uma camada de construção social e individual, aqui é
extremamente importante que a legenda se construa, com palavras escritas ou
não, para que, ao identificarmos como amigo, sabemos que amigo então o é.
Ele
passa a existir. O cachimbo deixa de existir e desfragmenta em discursos e
discursos sobre o que é um cachimbo, mas o amigo precisa da legenda para pelo
menos iniciar sua análise, para iniciar o processo todo. Caso não pensemos no
retrato, mas na pessoa, ainda assim ela necessita desse rótulo. O rótulo produz
a ideia para além do tempo, da palavra, nomenclatura, das ações, de tudo que
nomeia essa coisa que sequer existe concretamente, a existência do amigo sempre
foi conceitual, não é pedra, vassoura ou cachimbo.
Pensemos
em outra camada, imaginando que o autor do retrato seja o próprio que o colocou
como amigo, já pensamos que ele se coloca como referência a um outro, “amigo de
quem?”, mas passa a ser um autorretrato falho, algo que não o capta, por ser
apenas referência a si, mas nunca si, de fato ele se coloca como um
transcendente, mas a indicação perturba “Isto não é um amigo”, fala para quem? Qual
o intuito? Se diz não sendo amigo do outro referencial? Porque não se sente
assim, não é considerado assim? Desejaria ser? Não desejaria? Renega o rótulo
imposto fora da pintura? Temos camadas e camadas que talvez nunca se resolvam
de fato.
A
ideia permanece no ar, intensificada, dramática, um nó na garganta se faz, e se
ocultarmos sua face, ele se torna um símbolo, tal qual Sam Gamgee, mas amigos
no geral possuem face, é o rosto, na alteridade que se faz, o que o empurra de
fato, para um lugar de materialidade barata, mas sabemos que também não é
simples assim.
Se
no lugar de um rosto colocarmos um computador, uma I.A evoluída, e a legenda “Isto
não é um amigo”, ganhamos outra concepção, onde transformamos o amigo em consciência,
onde não há comportamento, palavras e atitudes, o amigo não existe nesse ponto.
A I.A nos responde, a legenda está ali para nos avisar que amigo pede alma, mas
há de fato um problema, da mesma maneira que a pintura poderia representar um
carro, um pet, uma planta, onde depositamos e nos relacionamos com tais
elementos como nossos amigos, tanto quanto um náufrago com sua bola de vôlei,
onde de fato existe intensidade, sentimento, nós pintamos o amigo, ele sendo nosso
delírio, podemos considerar pessoas como amigas que sequer possuem vida para
isso, no entanto, porque consideramos a bola, o carro, um pet e uma planta, que
não necessariamente conseguem agir como tal (talvez eu faça uma reparação sobre
o pet e as plantas, não entremos no terreno nebuloso e fascinante sobre reciprocidades
animadas, voltemos à Bola, ao carro, e porque não falar de uma biblioteca, onde
todos os mortos do passado conversam e nos aconselham, e mudam nossa vida e nos
fazem companhias, como legítimos amigos, então, se no reino inanimado isso é
possível...), porque não pela simulação de um amigo em forma de I.A, onde há o
comportamento, a interação, mesmo que simulada, o que já é mais do que uma
bola, uma biblioteca ou um carro, qualquer objeto que podemos pensar e que
ocupe esse papel?!
“Isso
não é um amigo” tilinta na tela, indicando uma I.A que nos responde e nos guia,
o mundo fica nebuloso. O computador está no retrato, esse livro está no retrato,
a legenda diz “Isto não é um amigo” e precisamos engolir seco, junto com boa
dose de angústia esse amigo conceitual, esse Sam Gamgee que não existe e nunca
existirá, por mais que um ator o corporifique, ou em casos mais concretos, por
mais que eu ou você o represente, o amigo como papel, interpretação, diferente
do ser em si que é bem mais que isso.
O amigo é um adesivo, um roteiro que pegamos, agimos, decoramos, atuamos, e depois, caso o fim da peça chegue, de fato, a legenda está correta, olhamos para a pintura, real ou não, animada ou inanimada, impulsiva ou não, feita de dados ou não, do delírio coletivo de afetividade, essa pintura está correta em sua legenda “Isto não é um amigo”.
Fabricio
Martines Alves
02/04/2025
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